Trilha comprida, esta. Ribanceira sem começo! Subidas ásperas, o coração corre atrás de qualquer arzinho e o suor pinga da roupa.
Estamos percorrendo um mundo onírico, abraçados por muitos diferentes tons de verde, sons ásperos de seres que não se mostram, ar saturado de chuva, barro onipresente em diferentes texturas.
É fácil entregar-se a uma contemplação tensa e silenciosa quando se está numa trilha de floresta, mesmo quando eu olho em volta "sem nenhuma intenção de poesia" ("Olhos Parados").
Mas a verdade é que estamos perdidos.
Duas bifurcações, Rafa e eu testamos e erramos ambas.
Um rapaz esperto, amável e sorridente, que mora logo acima do camping, tinha nos dado dicas de como chegar à praia. Descobrimos depois que as palavras que ele nos disse eram bem menos importantes do que as que ele omitiu. Pelo menos para nossa percepção de estrangeiros desajeitados; Rafa é um bom guia, mas meio ceguinho, e eu sem nenhum, falei NENHUM senso de orientação.
Erro número 1.
Ele emerge do matagal espinhoso, todo arranhado, mas sorridente. A gente errou, aqui não é a praia que a gente tá procurando, mas é um rochedo maravilhoso, dá pra ver o mar batendo, as ondas...
Minutos depois, estamos sentados na coroa do rochedo de uns quarenta metros de altura, cercados de penhascos e quase surdos com a pancada louca do mar.
Já te aconteceu sonhar sem estar dormindo? Aconteceu comigo, quando deitei na pedra e fechei os olhos. Imagens brotaram, palavras, seres que eu conheço desconhecendo. Tentei animar, me mexer, levantar, mas a intenção esmaecia rapidamente e lá estava eu, os olhos fechados, de volta ao reino ilógico do sonho.
Até agora não sei como consegui sair da letargia delirante daquela pedra.
Erro número 2. Esse é mais comprido.
Chegamos a uma clareira com um quintalzinho e uma casa sobre troncos.
Casa artesanal brasileira: madeira, telhas de amianto, porta-janela, som de televisão ligada. E no quintalzinho, cão latindo e quatro crianças brincando no barro. Três garotos, uma menina, todos com idades bem próximas. O garoto de uns sete anos é o mais velho e segura com firmeza o cachorro, que tem uma carinha adorável mas late para nós sem parar.
Perguntamos pela praia que procurávamos. O garoto que segura o cachorro vai chamar seu superior hierárquico e eis que surge da porta-janela um pré-adolescente que é praticamente uma fotocópia dos irmãos menores. A diferença está no jeito mal-humorado. Não é por aqui, diz ele. Vocês erraram o caminho. Fala mais meia coisa e volta a se refugiar na lâmpada encaixotada*.
Ficamos ali, digerindo a informação. E agora? A frustração é mínima, mas há o cansaço.
Decidimos mastigar umas castanhas-do-pará para distrair até a hora de retomar a caminhada.
As mãozinhas se estendem em concha, Rafa deposita castanhas em todas elas, depois se inclina pra acariciar o cachorro. Que tem um filhotinho inquieto. Como os bichos tinham parado de latir e estão agindo de modo bem simpático, Rafa pergunta ao cão, em tom de quem fala com um bebê, E você, gosta de castanha também?
A menina diz, Ele não fala.
Começo a rir.
O menino-chefe-na-ausência-do-mais-velho pergunta se conhecemos uma pedra bem bonita, perto dali. Tem vista pra ilha e pra todo esse lado daqui.
Lá vai a procissão subindo a pedra: Rafa, eu, os quatro, o cachorro e o filhotinho.
Em certo momento a subida fica difícil demais para pezinhos e patinhas e nosso pequeno líder, consciencioso como sempre, decide que todos desceriam e só os humanos adultos continuaríamos.
Alcançamos a pedra, que é o cume de um morro que se desdobra em mar.
Mais íngreme e perigosa do que o rochedo do erro anterior, mas com uma vista ainda mais linda.
Ficamos um bom tempo ali, bebendo chimarrão e capuccino preparados no fogareiro a gás.
A descida nem dói, depois de tanto silêncio embelezado por fragatas e atobás.
* Uma vez chamei o José, vizinho e amigo de insônias, para ver um DVD na minha casa.
Ele respondeu assim, Não tô com paciência pra lâmpada.
E eu, ignorante, Lâmpada? Mas eu tô te chamando pra ver um filme.
E a TV é o quê, besta? Uma lâmpada dentro de uma caixa.
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