Paraty - dia de desmontar o acampamento com pressa e ser grosseira com o Rafa e depois fazer as pazes

Juro que não falo mais sobre os dias em que fiquei acampada em Martins de Sá.
Só mais três coisinhas.
Primeira: a família que nos "hospeda" em seu pedaço de mata úmida em frente ao mar é muito simpática e prestativa.
Todos, do Natan, de uns oito anos, que recolhe os pedidos dos surfistas ávidos por um PF e os transmite à mãe, até o seu Maneco, avô e patriarca, com bronzeado que contrasta com cabelos brancos e sorriso que ilumina a ambos. Eles são tão tranqüilos que nos inspiram um misto de fé na humanidade e vergonha por nosso humor variável e algumas vezes grosseiro.
Alguém pede um cobertor ao seu Maneco. Ele sai da casinha-restaurante trazendo nos braços uma manta encardida. Tem esse aqui. Não é tão bom cobertor, mas também não posso dizer que seja ruim. Afinal, ele nunca falou mal de ninguém.
Cadê você, Guimarães Rosa?!

Segunda: estamos no entroncamento de duas trilhas. Aparecem alguns caminhantes com pranchas de surfe na mão e paramos pra pedir informações.
EU - Vocês sabem qual é a trilha pra Sumaca?
SURFISTA 1 - O quê?
EU - Sumaca, uma praia perto daqui.
SURFISTA 2 - Eu já ouvi falar numa praia com um nome assim. Sumatra. É Sumatra, né?
EU - Sumatra fica na Indonésia.
SURFISTA 2 - Isso aí, pode crer.
RAFA - A praia que a gente quer é Sumaca. Sumaca!
SURFISTA 1 - Pô, pergunta a alguém aí, brother, eu não sei não.


Terceira: vou às lágrimas ao ler o caderno escrito pelos freqüentadores de outras temporadas. Infelizmente, eu não tinha papel e caneta na hora.
Melhor ainda seria ter um escâner. Teria escaneado tudo, página por página, e reproduzido alguma coisa aqui.
Falam em utopia, em dividir alimento e prosa, em esquecer a pressão da cidade grande, uma pressão que não tem exatamente nome mas que todos reconhecem. Falam em como é bom compartilhar em vez de competir; conversar sem pressa em vez de brigar; viver o ritmo do próprio ser e da natureza e não o dos compromissos impostos por agentes externos.
Não há rigorosamente nada de incomum nessas aspirações. Todo mundo, se conseguir estabilizar a sanidade mental por alguns segundos que sejam, vai desejar exatamente as mesmas coisas, ou algo parecido.
Queremos felicidade. Mas parece existir um problema no fato de que queremos felicidade só pra nós. Ou, na hipótese mais complacente que consigo imaginar, nós a queremos pra nós e pra meia dúzia de nomes anotados em nossas agendas telefônicas.

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