Paraty - dia de brigar com os bloquinhos de lama grudados no corpo e nos sapatos e que insistem em entrar na barraca

Rafa e eu acampados aqui por toda a semana. Sem conhecer mais do que dois ou três, distantes das identidades do mundo urbano, fora do alcance das relações que nos aprazem e nos sufocam, amizade celebrada em condições duvidosas de higiene e conforto. Nossa principal diversão é conversar. E acontece de tudo nessas conversas.

RAFA na areia, nós dois cercados por uma paisagem preto-azulada de Turner - Subi várias vezes a Pedra da Gávea à noite, mas nunca sozinho. Sempre tinha que convencer alguém a ir comigo, senão eu começava a ter visões. Se fico sozinho, eu sinto que estou embarcando, indo embora, vendo e sentindo coisas que não são desse mundo. Na caminhada noturna, precisava levar alguém, nem que fosse uma criança, para me manter aterrado.

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EU nos rochedos, olhando os barcos de pesca, ao longe - Quando eu era pequena e ia à praia com as irmãs mais velhas, o que mais gostava de fazer era nadar até os barcos que ficavam ancorados a uma certa distância. Nadava, nadava, chegava a um barco, tentava subir, subia, quase sempre agarrando no cabo da âncora. Então eu mergulhava no mar, subia de novo, mergulhava de novo, recomeçava. As irmãs ficavam na areia naquela conversinha de praia, azaração e tal, não entendiam porque eu achava graça numa bobagem tão grande quanto nadar até um barco, subir e pular muitas vezes.

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RAFA diante do pôr-do-sol e de um mar inacreditável - ... então, eu e esse amigo meu chamamos uma garota de programa. Os dois queriam comer a menina e um ficou tentando despistar o outro, mas não deu e acabamos comendo ao mesmo tempo, quer dizer, os dois comeram, primeiro um, depois o outro. O interessante é que depois disso eu e o cara ficamos como irmãos, nossa amizade se tornou muito mais forte, coisa de irmãos mesmo.

Nesses dias, é natural pra nós dizer coisas como, Vai andando que de repente me deu vontade e eu vou ali atrás do barco fazer número dois.

Hora de se desmanchar de rir. Bem na curva em que o riacho amarelo encontra o mar, sentamos numa pedra e ficamos observando quatro garotos de bermudas de surfe, que parecem andar sem destino certo.
RAFA - É difícil essa fase da vida, esses garotos sem mulher, batendo cabeça por aí, inventando merda pra fazer, sem nenhum objetivo.
Nesse momento, um dos garotos saca da bermuda um baseado. Todos se agrupam para barrar o vento enquanto o primeiro tenta acender o cigarrinho.
RAFA - Agora sim, eles têm um objetivo: puxar fumo. Tudo bem, arranjaram uma ocupação.

E por falar nisso, nossos vizinhos da barraca ao lado são dois surfistas que passam boa parte do dia tocando blues e reggae no violão.
Adoro acordar ouvindo o som deles, com o mar batendo ao fundo.
E às vezes resolvem improvisar e conversar em blues. Hoje de manhã, bem cedinho, saíram-se com essa pérola:
Não tem Nescau,
nem cafezinho,
pra acordar vamo enrolar um fininho...

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