(Texto meio atrasado, dos dias de Natal 2006)
Delicioso descansar os neurônios diante deste home theatre suburbano do Pai, com parentes entrando e saindo da sala, sem parar um só minuto de resenhar a vida. Minha atenção se esvai entre o filme e os comentários e o resultado é uma sopa de fragmentos de diálogos, uma atmosfera de incoerência mágica.
Comer desilusões com farinha é uma arte difícil.
Várias vezes na vida pensei em maneiras de reagir com elegância a um pé na bunda. Uma situação de derrota qualquer. O mais importante é que seja indisfarçável. Exposição total. Como diziam os colegas de uma empresa em que trabalhei: calça arriada.
Há algum tempo, fiz um poema para um amigo que poucos dias antes tinha cortado sutilmente umas intenções delirantes da minha parte e eu tinha experimentado aquela sensaçãozinha inconfundível de cair no ridículo. Foi bem suave, conversamos a respeito e ficou tudo bem.
Dediquei o poema assim: pra você, que viu minha bunda e soube ser discreto.
Hoje recebi uma inspiração. Em "Guerra e Paz", filmagem do clássico de Tolstoi, Pierre (Henry Fonda) e Natasha (Audrey Hepburn) conversam no campo, ela montada a cavalo, ele de pé. O romance incubado que havia entre eles está prestes a terminar. Chega enfim o momento em que ele vai anunciar o compromisso com outra mulher, uma loura toda frondosa que depois se revela uma aproveitadora, ah, como é bom usar os termos de antigamente, principalmente para falar sobre os filmes de antigamente.
Mais ou menos isso:
PIERRE - Natasha, eu vou me casar com ela.
NATASHA, séria e perturbada, baixa o olhar e acalma o cavalo, que provavelmente havia entendido tudo e por isso deu sua fungada de apoio à dona rejeitada.
NATASHA, olhando de novo para ele - Seja feliz, Pierre. (E dá um sorriso esplendoroso) Eu ordeno que você seja extremamente feliz!
Se alguém precisar de uma saída honrosa, recomendo essa.
Da minha parte, vou tratar de providenciar um cavalo.
Assinar:
Postar comentários (Atom)
Nenhum comentário:
Postar um comentário