A arte tem seus próprios métodos pra nos deixar de quatro.
Encontro a Karla enfurecida diante do aparelho de DVD.
Achei até que ele tinha quebrado. Ofensa máxima numa casa onde jamais se assistiu a um capítulo de novela. Uma casa movida a cinema. Quando os altos e baixos da Roda da Vida a impedem de ir prestar reverência à telona, ela trata de convocar as locadoras "amigas" pra que enviem um (ou um punhado de) DVD´s que salvarão a noite.
Mas a noite da Karla está dramaticamente ameaçada. E seu algoz chama-se Leopold Bloom.
KARLA - Que filme horrível! Não entendo nada! Uma coisa sem pé nem cabeça, um horror.
EU - Calma. É um filme adaptado do Ulysses. Isso aí é James Joyce.
KARLA - E daí? E daí que seja James Joyce? O que quer dizer isso? É pra ser assim mesmo, hermético, incompreensível?
EU - O cara é fodão, é difícil de entender mesmo. Até que parte você chegou?
KARLA - O Bloom acabou de ser sodomizado por uma mulher maluca que o obrigou a beber xixi.
EU - Ah, então tá quase no final.
KARLA - Tem certeza?
EU - Tenho. Essa parte da mulher e a parte em que ele está vestido de rei fazendo cocô, tudo isso são os delírios do personagem. Ele é um artista, ou melhor, um intelectual judeu num país muito católico e conservador. Tem mil referências irlandesas que a gente não entende e tem o próprio mundo do Joyce, que era fantástico. Fica quieta e assiste até o final.
Dois minutos depois.
KARLA - Meu Deus, esse é o pior filme do ano!
EU - Calma! Eu já vi, o final é lindo. E isso é só o filme, casseta, a gente nem tá lendo o livro! O livro tem umas 600 páginas, é considerado o melhor romance em língua inglesa do século XX. Essas frases que os personagens estão falando, essa do Stephen Dedalus, "a história é um pesadelo do qual estou tentando acordar", "não podemos mudar o país, então mudemos de assunto"; hoje são citações conhecidas por um montão de gente, gente como eu e você, pessoas que não conseguiriam ler o livro nem se tentassem.
KARLA - Então eu sou uma inculta. Eu não tenho capacidade pra entender isso.
EU - Quase ninguém tem! Quem você conhece que já leu o Ulysses? Eu só conheço um ou dois que começaram. O legal do filme é que ele te aproxima um pouquinho do universo do livro. Falando sério, espera mais um pouco, o lance com esse filme é que a gente tem que insistir.
Logo depois do Yes de Molly Bloom.
KARLA - É lindo. Vale o filme todo.
E o papel ridículo que fiz em 2003, quando me levaram pra ver a montagem de Aderbal Freire-Filho do romance O que Diz Molero, com três horas de duração.
É claro que o querido amigo que me levou esqueceu de explicar antes o que era essa tal técnica teatral chamada de "romance em cena".
No primeiro ato, vibrei.
"... a infância do rapaz foi particularmente estranha, condicionada por questões de ambiente que fizeram dele, simultaneamente, actor e espectador do seu próprio crescimento, lá dentro e um pouco solto, preso ao que o rodeava e desviado, como se um elástico o afastasse do corpo que transportava e, muitas vezes, o projectasse brutalmente contra a realidade desse mesmo corpo, e havia então esse cachoar violento do que era e a espuma do que poderia ser, a asa tenra batendo à chuva".
Na metade do segundo eu me senti claustrofóbica, detestei cada centímetro da cadeira dura que torturava meu ciático e desejei que o espetáculo acabasse logo. Mas ainda faltava o intervalo e um ato inteiro.
Uma selvagem criança mimada cresceu em mim.
Quando a coisa finalmente terminou, caprichei na expressão carregada, para incomodar os amigos que se sentiam feliz por estar ali. Saí do teatro bufando como um cavalo.
Algum tempo depois, folheei o romance de Dinis Machado.
Maravilhoso. Impecável.
Nada na peça desmerecia o livro.
O que era uma cadeira dura perto daquele adorável fluir de palavras?
E me senti uma idiota, principalmente quando mostrei o livro ao meu amigo e admiti que por razões superficiais tinha encenado um mau humor injustificável.
E o pior foi a cara de sim, fazer o quê? estou acostumado que ele fez quando confessei meu pecado.
Hoje a montagem elogiadíssima está em Portugal e acabo de ler uma entrevista do diretor dizendo que tinha encurtado para pouco mais de duas horas, uma versão "para os preguiçosos e os que têm problema na coluna".
Quando ouvi o Rafa falar de Hündertwasser, pensei que ele estivesse espirrando.
Claro que isso é retórica.
Mas eu realmente nunca tinha ouvido falar no cara. Eu vivia muito orgulhosa de conhecer a obra do Gauguin e de gostar das cores do Gauguin e de certo dia ter tido o privilégio de ver uma exposição de algumas pinturas importantes do Gauguin em Martigny, Suíça. Nas inúmeras passagens pela Ilha Grande, eu via traços de vahines nas meninas caiçaras e algo de pareôs em seus vestidos de chita. Das que não eram evangélicas, claro. As "crentes" não usam estampas e seus cabelos de vahines andam domados em uns coques enormes.
E um dia o Rafa perguntou, Você conhece Hündertwasser? Ele também tem umas cores maravilhosas.
E me mostrou o livro.
Estávamos na livraria do Museu de Arte do Rio Grande do Sul, o MARGS, em Porto Alegre; fazia um calor infernal e minutos antes eu tinha pensado em silêncio que aquele ar condicionado estava deixando muito a desejar. Mas os livros eram bons e eu já tinha uma pilha deles meio separada num cantinho, para a hora do embate final entre o cartão de crédito e as pretensões pseudointelectuais de seu principal antagonista, o ego.
E Rafa me mostrou o livro, aquelas cores loucas dançando na capa.
E enquanto eu virava páginas, a escala turva das minhas cores mentais sofria uma expansão assustadora.
Quando acabou, respirei fundo e olhei em volta.
Hündertwasser tinha redesenhado e recolorido tudo.
Esbarro nessas frases no meio de uma conversa filosófica entre budistas e simpatizantes, pela internet: Buda dizia que a diferença entre os infernos e o reino dos deuses era pequena. Algemas de prata, algemas de ouro. A liberdade consiste em não tentar controlar o mundo fenomênico. O que quer que surja, agradável, desagradável, é a manifestação do Mahaguru. Nada deve ser desperdiçado.
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